A segunda parte do texto trata-se sobre o estudo da experiência do Programa de Prevenção ao Suicídio do Centro de Valorização à Vida em Porto Alegre que faz um trabalho na linha de intervenção e prevenção do suicídio. Um fator interessante que o texto destaca é que o trabalho é feito por voluntários não especializados que são treinados para fazer esse atendimento.Esse treinamento é um dos fatores que é explorado pelo texto também.
O CVV iniciou seus trabalhos em 1962 em São Paulo e mantém também outros trabalhos assistenciais como o Programa de CVV de Prevenção ao Suicídio, o Hospital Francisca Júlia, o Caminho de Renovação Contínua, Amigos de Zippy.
O trabalho realizado em Porto Alegre consiste em atendimento via telefone (esse é realizado 24 horas por dia, inclusive em domingos e feriados) e pessoalmente (das 8h às 18h, também em domingos e feriados) sendo um trabalho realizado de maneira sigilosa e gratuita, aberta para quem necessitar conversar sobre dores e angústias, momentos difíceis. Posteriormente foi instituído também um trabalho online que continua operando até hoje.
A prevenção ao suicídio pode ser dividido em três categorias: científico, que são remunerados e integrados por profissionais; o atendimento religioso que é feito por pessoas que participam de alguma ordem de carácter religioso e os humanitários que é a base do trabalho feito pelo CVV, não tendo bases religiosas, políticas ou partidárias.
O CVV busca a valorização da vida através da formação de uma sociedade fraterna, compreensiva e solidária. O grupo tem valores que pregam a tendência construtiva humana e os valores do trabalho são "direção centrada no grupo, aperfeiçoamento contínuo, comprometimento e disciplina".
Os voluntários são capacitados segundo a teoria de Carl Rogers da "Abordagem Centrada na Pessoa" que conhecemos na primeira parte do texto. Por ter como base uma teoria, foi necessário a estruturação de um treinamento formalizado.
A definição de relação de ajuda é dada através da interação da pessoa que precisa de ajuda com o voluntário, dando-se através da comunicação sendo o assunto o problema e como solucioná-lo. No CVV é focada na abordagem de Rogers de ACP que todo voluntário deve conhecer bem e colocá-la em prática, também tendo um foco de autoconhecimento, desenvolvimento e crescimento para que seja capaz de realizar suas atividades.
A ajuda do CVV busca reativar no indivíduo atendido sua Tendência Atualizante, ou seja, autonomia, conservação e socialização. As atitudes adotadas pelos funcionários são chamadas Condições Facilitadoras do Crescimento, que tem a ver com a postura de que o voluntário cria condições favoráveis para o amadurecimento e bem estar, porém não é responsável pela resultado final (suicídio ou não), tendo uma visão positiva de que aquela pessoa vai optar por direções positivas.
Para que seja facilitado o crescimento do indivíduo é necessário que o voluntário conheça muito bem o conceito de Compreensão Empática. Para compreender empaticamente uma pessoa, devemos deixar de lado nossas próprias crenças pessoais e emergir no mundo daquela pessoa sem preconceitos e julgamentos. Por conta disso, é necessário, como citado acima, que o voluntário tenha um bom autoconhecimento.
Outra atitude muito importante para o crescimento da pessoa ajudada, é a Consideração Positiva Incondicional porque traz total atenção às ambivalências (isso significa que a pessoa tem a possibilidade de se aceitar podendo assim se conhecer de fato, assim facilitando a mudança).
A ideia do ACP é principalmente fazer com que a pessoa entre em contato consigo mesma e tome suas próprias decisões sendo um voluntário apenas um facilitador. Por isso cabe ao voluntário não julgar e que ele seja congruente com suas atitudes porque muitas vezes no "mundo real" tendemos a dissimular sentimentos.
Quanto ao treinamento ele é realizado da seguinte maneira: a partir de uma Aula Inaugural, voluntários da CVV são divididos a partir da área de interesse que mais agradar (por horários disponíveis. Os cursos tem carga mínima de 30 horas, podendo chegar a 36 horas, sendo que as turmas podem chegar a no máximo 20 pessoas (maiores de idade e alfabetizadas).
São doze encontros divididos em Temas, Estágios e uma aula de revisão de Temas e uma aula relativa à questões administrativas.
Além do curso, a CVV tem um Manual do Voluntário que tem o conteúdo a ser ministrado, porém no curso ele deve ser contextualizado.
Todo voluntário deve fazer a cada dois anos um curso de reciclagem e também participar de reuniões mensais para falar sobre as experiências que viveram em exercícios chamados "Vida Plena" em que também é utilizado o feedback.
A seguir o texto entra na explicação dos módulos do treinamento. Os temas introdutórios (1, 2, 3) buscam conhecer a CVV, os casos que chegarão (buscando conhecer mais sobre suicídio), o próprio voluntário (voltado a aquela questão de autoconhecimento previamente citada) e a relação de ajuda (destacando que essa não é uma substituta à terapia, trazendo que nessa relação os voluntários buscarão que a própria pessoa chegue a sua decisão, buscando também uma atenção muito grande aos detalhes, fazendo as coisas com paciência e cuidado).
O módulo 2 é executado de maneira um pouco diferentes, sendo aulas teóricas e práticas ao mesmo tempo. As aulas práticas são chamadas treinamentos de papéis e esse tipo de exercício tem diversas modalidades como Role Playing (buscando vivenciar situações o mais fidedignas possíveis que simulem as vivências dentro do CVV), o Estágio 1 (que visa preparar emocionalmente os voluntários para o que virá através de dinâmicas de grupo e exercícios), o Estágio 2 (cujo o foco é explorar situações mais amenas como abordagens telefônicas mais simples e também fechamento de atendimentos, porém ainda mantendo a abordagem levantada no tópico de relação de ajuda, sendo sempre muito cauteloso), o Estágio 3 (que foca em temas como sigilo, confidencialidade e privacidade e também no atendimento de pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas), o Estágio 4 (cujo o foco é o tema perdas sendo essas de diversos tipos separações, desemprego, de pessoas etc; sendo essa etapa muito importante para executar a paciência e tolerância; também nesse estágio desenvolve-se um dialogo sobre temas de temática sexual), o Estágio 5 (que busca passar para os voluntários sobre as diversas reações/expressões de sentimentos que eles terão de lidar ao longo do trabalho; além disso ele busca trabalhar com o voluntário como lidar com diversas personalidades, inclusive as manipuladoras que entram em contato para descobrir falhas no programa e os tipos de atendimentos mais drásticos de pessoas cujo suicídio já está em andamento por exemplo).
A finalização da capacitação se dá por uma autoavaliação do funcionário, buscando saber o quanto ele acredita ter aproveitado do treinamento e o quanto acredita no trabalho feito pelo CVV. É nesse momento que o voluntário é levado a refletir se vai trabalhar de fato no programa ou colaborar de outras maneiras. A partir dessa resposta são organizados os horários de plantão dos novos voluntários em um momento em que eles ainda serão acompanhados por alguém mais experiente. Após o fim dessa experiência, ele assinará o termo de voluntariado e receberá as chaves do posto.
A parte final do texto é um resumo sobre a experiência da autora como voluntária plantonista que também colabora com a seleção dos candidatos. Nesse momento a autora busca desmistificar alguns pontos sobre o suicídio e sobre o trabalho como voluntário.
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