segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Lama no laboratório

O texto relata a experiência realizada por uma turma de psiquiatras com um monge tibetano. O interesse do estudo era conhecer mais profundamente a mente extremamente disciplinada de um monge bem como o que ocorria dentro dessa mente durante o estado de meditação, buscando desvendar se esse estado nos ajudaria a lidar melhor com emoções destrutivas, se a pessoa por esforço próprio pode "moldar" sua mente de maneira a evitar essas emoções sendo assim mais efetiva que medicamentos.
A experiência foi feita da seguinte maneira: Oser, monge tibetano escolhido para o estudo, faria um rodízio mental cotidiano, em repouso, passando assim por diversos estados meditativos. Diante de um vasto cardápio de opções de meditação, os pesquisadores escolheram uma visualização, a concentração em um ponto e a geração de compaixão e o monge escolheu meditações sobre destemor e devoção e "estado aberto", e assim se formou o que eles estudariam daqui para frente. Não entrarei profundamente nelas, porém cada uma possuía características próprias que as distinguiam em teor, embora não fossem tão distintas em processo. Caso o monge conseguisse demonstrar características nítidas e coerentes em quaisquer desses estados meditativos, essa seria a primeira vez que veriam isso.
Durante a experiência, o monge meditou durante pequenas sessões dentro de um aparelho de MRI, repetindo as sessões dos estados que ele havia escolhido. Após esse exame, ele partiu para uma bateria de exames de eletroencefalógrafo. Além disso, durante os dias de experimento, eles tiveram a visita do próprio Dalai Lama que estava ali para discutir os resultados com os pesquisadores, demonstrando tino para entendimento dos dados científicos.
Como um dos primeiros resultados da pesquisa, Davidson conseguiu extrair que muito provavelmente o monge era capaz de regular voluntariamente suas atividades cerebrais, apenas pensando. Ou seja, haviam mudanças no seu cérebro cada vez que ele mudava de estado mental. 
Outro resultado também valioso, aconteceu quando ele meditava sobre compaixão foi uma alta numa atividade elétrica fundamental chamada gama no giro mediano frontal esquerdo (local das emoções positivas). Em outro estudo, Davidson concluíra que pessoas com alta nessa atividade relatavam simultaneamente sensações de felicidade, entusiasmo, alerta, alegria e alta energia. Em um local oposto do cérebro, situam-se as emoções aflitivas, quem tem mais atividade ai está propenso a tristeza, ansiedade e preocupação. Essas descobertas são importantes, pois cada um tem a propensão de alterar o próprio humor e assim alterar a proporção dessas atividades opostas e o monge conseguiu fazer essa alteração de proporções durante essa determinada meditação.
Foi questionado durante as pesquisas se esse resultado positivo eram em razão à personalidade do monge ou em razão do intenso treinamento a que ele foi exposto ao longo da vida. Caso isso fosse em razão ao seu treinamento, essa era uma descoberta essencial para o desenvolvimento humano.
Após os estudos de Davidson, Ekman, outro pesquisador fez um experimento de identificação facial em que as pessoas tinham de identificar em um período muito rápido quais expressões viam. Esse experimento demonstra o potencial empático que cada pessoa tinha. Nesse estudo, as pessoas que melhor se saiam eram mais abertas a novas experiências, curiosas e interessadas sobre tudo. Além de dignas de confiança e eficientes. Ekman convidou Oser com a esperança de que ele como experimente meditador se saísse melhor que os outros candidatos do estudo e assim foi. Por que isso? A conclusão  a que o Dalai Lama chegou foi que a meditação talvez aprimore a capacidade de cognição (perceber estímulos mais rápidos) além de uma maior capacidade de afinação em relação a emoção de outras pessoas.
Nesse mesmo estudo, eles estudaram o reflexo do susto, algo completamente espontâneo e primitivo, sem poder ser contido por nenhum ato racional. O susto foi escolhido para ser estudado porque quanto maior o susto que a pessoa sente, maior a tendência a sentir emoções negativas. Nunca antes haviam conseguido reprimir o susto, porém o monge conseguiu, trazendo maiores implicações para o estudo do desenvolvimento humano.
No experimento seguinte, eles tentaram ver no que implicava fisiologicamente, a discordância, colocando o monge debatendo algumas questões em que ele e uma pessoa tolerante e outra intolerante (uma de cada vez), discutiriam sobre pontos discordantes. Com a pessoa tolerante, a conversa foi extremamente agradável para ambos e quanto à pessoa intolerante, aos poucos o monge a acalmou-a de maneira que ela não conseguia confrontá-lo. 
No último experimento apresentaram para o monge um filme de amputação que mostrava apenas o membro sendo amputado e um segundo filme em que uma pessoa tinha sua pele queimada sendo arrancada. No primeiro filme, a reação do monge foi uma aversão normal. Porém no segundo filme, o que ele pode ver a pessoa inteira, o monge sentiu uma profunda carinho, consideração e compaixão pela dor da pessoa, pensando em como amenizar o sentimento dessa pessoa.
Diante desses resultados, o pesquisador decidiu prosseguir com essas pesquisas com pessoas que ao contrário do lugar comum da Psicologia, não eram "problemáticas", mas sim extraordinárias. Extraordinárias no caso eram pessoas que emanavam a sensação de bondade (não só passando, mas sendo de fato bondosos), eram desprendidas em relação ao status, fama e etc; e por fim eram extremamente concentradas e atenciosas. 
O experimento que se seguiu foi em relação a neuroplasticidade do cérebro (ou seja capacidade de ser modificado ao longo da vida) e a pergunta central, relacionada com os outros experimentos era se era possível alterar através da meditação alguns circuitos do cérebro associados a diversos tipos de emoção. E a conclusão é que aparentemente sim.
Como conclusão do trabalho, vemos que é possível condicionar nossa mente e que isso só traz benefícios pro próprio corpo e mente. E isso não quer dizer apenas no sentido religioso, mas no sentido puramente trazendo da realidade humana hoje em dia.

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